Robôs-jornalistas: pesquisa de mestranda da UCB aborda o uso da IA na produção de notícias

Com os avanços da Inteligência Artificial (IA) e da robótica, o fascínio gerado abre espaço sobre perspectivas em relação ao futuro das profissões. Com os profissionais responsáveis por apurar e entregar informações não seria diferente. 

Por mais que o trabalho do jornalista possa parecer artesanal, já existem diversas redações usando a IA para escrever notícias do cotidiano, acelerando a produção de conteúdo. E, ao que tudo indica, esta nova fase do jornalismo é um caminho sem retorno.

O caso mais famoso dentre as grandes redações ao redor do mundo que começaram a usar a IA em suas produções é o Heliograf, sistema de Inteligência Artificial do The Washington Post. O sistema começou escrevendo para a cobertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, e agora escreve sobre partidas locais de eventos esportivos nos Estados Unidos.

Levando em conta o cenário nacional, alguns problemas podem surgir no processo de adaptação do mercado. O Brasil é, de acordo com o Speedtest, o 76° colocado no ranking global de velocidade em internet. Isso poderia gerar problemas no processo de implementação da IA na produção de notícias.

Estudante Suellem Barroso

Para Suélem Barroso, estudante do Mestrado Inovação em Comunicação e Economia Criativa da Universidade Católica de Brasília (UCB), que atualmente pesquisa o tema e pretende defender dissertação sobre o assunto, com orientação do prof. Alberto Marques, acredita que esse tipo de sistema pode ser usado primeiramente pelas grandes redações no país. “Essas redações já possuem uma certa musculatura no ambiente digital, tem utilizado APIs –  agregadores de conteúdo, manipulam bancos de dados e escrevem parcialmente notícias com apoio de inteligência artificial”. Ela cita o caso do Estadão, que está se submetendo a um processo de reestruturação digital, e usando cada vez mais de IA para apoiar a atividade jornalística.

Segundo ela, podemos olhar esse cenário de uso de tecnologia e acesso a internet por três ângulos: o do jornal, o do jornalista e o do leitor. “O veículo que quer implementar esse tipo de tecnologia precisa dispor de recursos para isso e ter muito claro qual o objetivo dessa camada de automação. Já o jornalista precisa desenvolver sua competência digital e ele pode fazer isso por cursos online gratuitos, por exemplo. Quanto ao leitor que está na ponta, recebe a notícia como qualquer uma outra, ele precisa ter o dispositivo eletrônico com acesso a internet para ler”, explica.Outro receio da classe de comunicadores pode vir do medo da substituição de sua força de trabalho pela IA, com o avanço das pesquisas na área. Suélem, por outro lado, acredita na reinvenção do jornalista, onde ele teria um tempo maior para se dedicar a pautas mais humanas. “A IA pode ajudar a vasculhar grandes volumes de dados, textos, imagens e vídeos. Os algoritmos são vistos como complementares aos jornalistas humanos, as relações homem-máquina podem ser vistas como algo integrativo, onde o conteúdo é parcialmente produzido por máquina e parcialmente por humano. A era da automação nas redações traz também uma requalificação do trabalho, assim como gera novos cargos, por exemplo, na redação da Associated Press você tinha o repórter, o editor setorial e o editor geral. Agora a AP adotou a inteligência artificial e a redação é composta pelo repórter, o repórter de inteligência artificial, o editor, o editor de automação, o editor geral, sem contar com os desenvolvedores”. Ela não vê uma diminuição no número de jornalistas profissionais, mas sim jornalistas com maior habilidade tecnológica.

O Twitter, uma das redes sociais mais populares do mundo por conta de sua agilidade na transmissão de informações, recentemente anunciou a compra da start-up Fabula.ai. A empresa é responsável por um software que, em tese, tem precisão de quase 90% na detecção de notícias falsas. Questionada sobre se esse tipo de tecnologia, por mais aliada que seja, não poderia minar ainda mais a confiança que as pessoas têm nos veículos de mídia tradicionais, Suélem acredita que esse seja um ponto ainda a ser discutido. 

“Confiança e confiabilidade possuem conceitos diferentes. Confiabilidade é julgar o quanto as pessoas são dignas de confiança em aspetos particulares e a confiança é a resposta. A transparência tem ganhado holofotes na vida pública e no jornalismo e ela pode apoiar a confiança fazendo com que seja provável que aqueles em que os requisitos de transparência são impostos acreditem que pelo menos alguns outros virão a saber o que eles fazem ou não”.

“A transparência algorítmica e a responsabilização, por exemplo, vão se tornar críticas quando ocorrerem erros, em especial ao abordar tópicos controversos e ou na personalização de notícias, mas essa área de estudo ainda está no começo”, explica. 

Por: Thalita Cardoso

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